A bagagem de uma vida | Revista Fleury Ed. 36

Já pensou no que carregar de aprendizado ao longo dessa jornada maluca chamada existência?


Ter bagagem é fundamental: nosso legado é nossa história e como nos encontramos no mundo. Por outro lado, chega mais longe quem vai mais leve. Como saber o que é um peso inútil e o que é um bem valioso, aquele que vai nos ajudar na jornada? Para discutir essas questões, convidamos personalidades, inclusive algumas que já fizeram parte da história da revista, para refletir sobre o tema, acrescentar ideias e inspirar mudanças e novos debates – sempre é tempo.

Neka Menna Barreto

Ver a vida como um banquete é mais do que natural para Neka Menna Barreto. Autora de uma gastronomia natural e criativa, ela carrega para a mesa essa visão de mundo de que de tudo pode se tirar um gosto. “Mas comer um banquete sem digerir não adianta. É muito importante fazer a digestão das nossas emoções, tanto quanto do alimento. ”A cozinheira e empresária acredita que as coisas a se deixar para trás são os apegos, os controles e os bens materiais. “Deixa o rio fluir que a canoa vai! O controle é uma forma errada de administrar. É uma angústia que não leva a nada, não ensina o outro a evoluir”, conta a gaúcha.

Amadurecer, para ela, torna a caminhada mais leve com o passar do tempo. Por isso, nada de “carregar tanto”, lembra. “Vai mais longe quem vai mais leve. É quando o essencial acontece. Não pode ficar encalacrado, preso em ressentimento.”

Para Neka, cada um tem a obrigação de ao menos tentar resolver suas questões, “pegar esse caldo e fazer alguma coisa com isso”. Essencial na execução dessa receita é conseguir evoluir, “superar preconceito, valorizar o ‘ser’, em vez do ‘ter’, deixar para as próximas gerações”.

O ingrediente principal, é “lógico, o amor”. E claro, para ela, o que se leva à boca é o que se leva na história do corpo. “Se alimenta bem, porque o alimento é um hábito. Ele faz você pensar. Cuida de ti. Quem só come chocolate e pão não acorda de manhã a fim de viver seu dia.”

Neka foi a entrevistada de capa da edição 32, de 2015, sobre #bembom.

Ivaldo Bertazzo

Sem pensar muito, o coreógrafo rapidamente apresenta uma lista do que deixar para trás: a amargura, os ressentimentos e as frustrações. “Apesar de eu não ser budista”, brinca. Ivaldo acredita que, ainda na família, o indivíduo recebe marcas na sua personalidade que podem refletir na dificuldade de enfrentamento da realidade. “Como cada um tem um potencial, encara o embate com os sofrimentos de um jeito diferente. O que vale a pena é criar conhecimento, abrir-se para as relações, sair do foco do individual.”

Para Ivaldo, a nuance entre legado e carga é sutil. “Eu tenho que ir me libertando à medida que envelheço, não ficando mais preso.” Rir, por exemplo, pode ser uma libertação, um alívio do peso que se coloca em questões menos cruciais. “O riso é exatamente um desprendimento de tudo o que você está vivendo, dos apegos. E o choro drena amarguras. É nesses pequenos momentos que eu capto a existência, olho no espelho e vejo com clareza”, revela. A arte ajuda. “Aprender a pintar, cantar, desenhar, cozinhar...” Cozinhar? “A mesa para mim tem o mesmo peso da arte. É o tempo para construir e elaborar, uma elaboração muito fina, e a paciência que alguns têm ou não para cozinhar.”

Aprender a elaborar o gesto, inclusive, é considerado fundamental pelo coreógrafo para se libertar de alguns fardos psíquicos. “Todo gesto tem uma motivação. Quando eu aprendo a funcionalidade, eu ofereço uma visão direta sobre como aqueles músculos e ossos se organizam. É muito simples: isso acalma, dá uma sensação de base, de estrutura. Quando o corpo leva a gente, precisa tomar cuidado para não ser uma ação do psicossomático. Mas quando o gesto te leva, é o movimento que vai te induzindo a uma locomoção, a uma manifestação verbal, projeção no espaço da sua postura. O gesto leva a gente; o corpo não.

Ivaldo foi entrevistado da seção “Entre aspas” da edição 24 da revista, em 2012.


Daniel Guth

Dos 32 anos do cicloativista e consultor em mobilidade, os últimos dez foram de redescoberta. “Na infância era uma relação muito próxima, de viver o bairro, brincar na rua. Depois de uns anos morando em Cotia, em uma região em que uma padaria ficava a 7 ou 8 quilômetros, voltei para São Paulo e fiquei feliz de estar novamente cercado de uma estrutura em que comércio, escola, podem estar a quadras de distância”, conta.

Nem parece alguém falando de uma metrópole, ainda mais a frenética Pauliceia. O que muda, na verdade, é a ousadia para as rupturas e construções de novas pontes. Daniel vendeu o carro sem dor no coração e tornou-se vegano. Escolhas do que levar e do que deixar, sempre com a bicicleta como eixo central, em que a prioridade é a “vida numa escala humana, de bairro, de distâncias acessíveis”. Além disso, por meio da magrela encontrou uma forma de se sentir parte das mudanças por que tem passado recentemente a capital paulista.

“A bicicleta tem essa coisa de promover encontros a partir de desencontros, é muito bonito."


Noemi Jaffe

“Acho que, com 54 anos, um tempo de vida razoável, aprendi que algumas coisas às quais dava importância têm pouca importância.” Foi assim que Noemi Jaffe começou o papo com a Revista, lembrando de um dos aprendizados que carrega consigo.

“O sucesso, por exemplo, mudou de significado. Não precisa ser reconhecido, ter nome ou que as pessoas validem. Basta que tenha significado para você”, opina, para lembrar: “E tem de pensar que pode acabar em um minuto”. A escritora e professora confessa que, para entender o sucesso, precisou viver o fracasso. Não ter entrado num concurso público ou frustrar-se com um de seus livros, por exemplo, fizeram com que visse “a importância de errar” e como está longe de ser “tão trágico quanto a gente imagina”.

Com essa perspectiva, Noemi aprendeu “a dar importância a coisas pequenas, aproveitar enquanto estão acontecendo”. E insiste com seus alunos para que se abram para se interessar e observar tudo o que está ao redor. “O acaso e a busca estão se cruzando o tempo inteiro. Quando você busca as coisas, têm mais chance de acontecer. O acaso não é tão casual.”

Noemi foi entrevistada na edição 28, de 2014, sobre #leveza.


Laura Vinci

Olhar para além do próprio umbigo. Como membro de uma família grande, Laura Vinci cresceu vendo pais e irmãos, entendendo a compartilhar e dividir. “Aprendizado é perceber o outro, aprender a perceber o outro. E aprender com o outro.”  

Uma das principais obras da artista é a Máquina do mundo, instalada em Inhotim, em que uma máquina equipada com dosadora e correia transportadora carrega pó de mármore de um monte de uma extremidade a outra. Esse movimento faz pensar na ideia de transição, passagem e “sugere um tipo de reflexão diferente, de um outro tempo”.

Existe uma metodologia por trás, alguns “rascunhos”, e até dá para ter “uma noção do
que vai acontecer, mas não é o que acontece”. Segundo Laura, “o trabalho quando instalado
é que vai ser o que é. A exposição do Hospital Matarazzo [Papéis avulsos], por exemplo, nunca mais vai ser vista. Tem uma fugacidade, existiu naquele momento, como eu fiz ali, porque tinha exatamente aquela especificidade. E é assim mesmo. A gente nunca é igual a um segundo atrás, algumas células envelhecem, morrem, estamos sempre em pleno movimento”.

Laura foi entrevistada na edição 30, de 2014, sobre #performance.


Eduardo Srur

A cena dos caiaques coloridos e tripulados no meio do rio Pinheiros persiste na memória de muitos paulistanos. O artista plástico Eduardo Srur ainda recebe comentários sobre a intervenção artística, de 2006, escancarando aos moradores de São Paulo como aquele espaço, outrora ocupado pela prática do remo, estava (e está, até hoje) poluído e abandonado.

“O que a gente carrega são as boas lembranças, a mudança do olhar, a reflexão. E o que se apaga é o peso, a materialidade”, conta o artista que, com vídeos, fotos e reportagens, vê obras antigas mais do que vivas. “Ela nasce com uma característica efêmera, mas a captação prolonga seu tempo de vida, embora sem a mesma força.”

Essa impermanência não preocupa Srur. “A mágica da intervenção é a dinâmica da cidade. Não tenho uma preocupação em ser eterno. A vida também não é para sempre. Eu vou embora, mas minha obra fica e a minha obra sou eu”, reflete. “Pode ter certeza que se eu tiver de me arrepender de algo, vai ser de algo que fiz, e não do que deixei de fazer. O terreno do não feito é infinito, maior do que o feito. Eu sou um artista que tomo minhas decisões, e a partir dessas escolhas eu sigo em frente. Não dá para fazer de tudo, mas dá para fazer o melhor.”

Srur foi o entrevistado de capa da edição 26, de 2013, sobre #movimento.


Relembre as edições anteriores da Revista Fleury em fleury.com.br/saude-em-dia

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