Desista não insista | Revista Fleury Ed. 39

Nem sempre seguir adiante e deixar o que é ruim de lado é a garantia de corrigir uma rota que se percebe errada.

Nem sempre seguir adiante e deixar o que é ruim de lado é a garantia de corrigir uma rota que se percebe errada. Muitas vezes, tocar a bola para a frente significa desistir, andar algumas casas para trás, ou, como prefere a psicanalista e professora universitária paulistana Maria Homem, para fora. Isso vale para alguma situação ou estado psíquico, como sair de uma relação abusiva (seja de trabalho, amorosa ou familiar) ou deixar qualquer forma de projeto ao qual você está psiquicamente acomodado, mas no qual não encontra mais satisfação. Na visão de Maria, esse “desistir” está mais conectado com o “não insistir” do que com a definição clássica que temos daquele termo, de “não seguir adiante” ou dar um passo para trás. E como todo processo psicanalítico, essa saída pede tempo, dedicação e esforço para que tenhamos consciência dela e possamos executá-la para viver melhor.

De acordo com a teoria psicanalítica, todas as ligações que fazemos ao longo da nossa existência – sejam com pessoas, objetos ou situações – são resultado de pulsões e investimentos libidinais que nos direcionam àquilo. O que acontece na maior parte do tempo é que nossos instintos conservadores, no sentido de permanecer ou nos acomodar, nos mantêm em situações que inconscientemente não são as melhores, mas trazem certo conforto psíquico. “Normalmente, a gente vai fazendo conexões e desconexões. Então, a prática da vida é justamente você ir instalando e desinstalando relações. Você tem forças que são ‘ligantes’, que conectam, e igualmente forças extremamente potentes de ‘desligação.’ Só que isso é muito complicado, sofisticado e não é totalmente racional”, revela a psicanalista.

Isso explica por que suportamos chefes tiranos, jornadas de trabalho insanas, casamentos frustrantes e relações familiares superficiais. Mas também está relacionado à maneira como lidamos com determinados problemas (escolhendo fugir deles, algumas vezes) ou escolhemos tal tipo de parceiro amoroso ou profissional. A chave está na pulsão de morte, teoria criada por Sigmund Freud para designar esse tipo de força que nos impulsiona sempre para o mesmo lugar, uma compulsão à repetição que não cria, apenas mantêm-nos ali. “A vida precisa de alguma forma de quebra, de desligamento da repetição, para que se instaure o novo”, comenta Maria. Só que essa quebra tem um custo psíquico alto, que nem sempre queremos pagar e, por isso, acabamos entrando nas mesmas armadilhas e repetindo ad eternum o mesmo erro, em busca do desejado equilíbrio.

Um passo de cada vez

Para Maria Homem, em nome do binômio equilíbrio-estabilidade, acabamos por cometer enormes sacrifícios psíquicos e insistir em situações tóxicas, ainda que não tenhamos real consciência disso. “Eu diria que viver é a arte de operar em um equilíbrio instável. É o desequilíbrio do andar: é desiquilibrar-se que faz o passo ser possível, sempre sobre um pé. Se você parar com os dois no chão, não sai do lugar. A caminhada é praticamente um não-equilíbrio, ela é uma ‘equilibração’, como diria o [pedagogo francês] Jean Piaget”, analisa. “Piaget vê aí dois processos, a assimilação e a acomodação. Você assimila informações novas e as reacomoda no sistema mental para fazer uma nova cognição, que assimila e acomoda. É uma equilibração necessariamente instável”, complementa.

Desse processo a que se refere Maria, faria parte a correção ou a manutenção de uma trajetória. A psicanalista ressalta que a dualidade entre o conservar e o mudar (ou experimentar o novo) é um dos motores do viver, e que cada uma destas pontas traz ganhos e perdas. “Não que eu ache que a gente tenha sempre que queimar os navios e não conservar nada. Considero a postura conservadora em si um equívoco, pois ela parte do imperativo ‘conserve,’ que talvez não faça sentido. Mas eu também sou crítica, pelo mesmo motivo, da novidade ou da transformação obrigatória, porque ela não deixa de ser uma repetição, a conservação de um padrão”, postula a psicanalista.

Soltar-nos das amarras de comportamentos repetitivos não é fácil e pede dedicação e esforço em nos autoconhecer, muitas vezes, com o apoio de um profissional de psicologia ou psicanálise. As mudanças – e as desistências, por assim dizer – não ocorrem simplesmente porque alguém acorda e decide parar de fumar, ou de ser explorado no trabalho, pelo parceiro ou pelos amigos. Maria explica que, primeiramente há que se analisar o lugar que este algo do qual se quer desistir ocupa na nossa vida. “Você é aquele cara que era o amigo superlegal, superbacana que vai entrando num jogo inconsciente e consciente de se deixar explorar, e o seu narcisismo está alimentado disso. Vamos dizer que algum dia surja essa consciência e o arco – uma estrutura, quase um arco dramático – deste processo se revele para você. É aí que você começa a se interrogar.”

Interrogação feita, é hora de sair da força centrípeta que nos prende e nos leva à desistência ou ao fracasso, o que na concepção da psicanalista seria a incapacidade de se tomar uma atitude diante da repetição. Como cada ser humano funciona de uma maneira, Maria reforça que o segredo está justamente em saber do que se gosta e chegar cada vez mais próximo de uma forma de vida que nos permita usufruí-la.

“Isto é muito difícil de fazer, embora a gente talvez concorde e ache mais ou menos razoável ou sensato. Porque na prática da vida, o que você faz? Casa ou compra uma bicicleta? Tem mais um filho ou não? Vai largar tudo e viajar, vai suportar esse trabalho, essa relação, esse chefe? O que você suporta e o que você faz força para manter? Porque manter tem um custo, e perder também”, finaliza a psicanalista. O fiel dessa balança, no entanto, não é tão simples de ser encontrado e varia de pessoa a pessoa, e do quanto ela quer insistir ou desistir de algo.

Maria Homem é psicanalista formada pela Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Professora na FAAP e no Núcleo Diversitas-USP, com pós-graduação no Collège International de Philosophie/Universidade de Paris 8 e FFLCH-USP, ela também ministra cursos livres na Casa do Saber (SP).

É autora de No limiar do Silêncio e da Letra - traços da autoria em Clarice Lispector (Boitempo, 2012).

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