Lais Souza Cair e recomeçar | Revista Fleury Ed. 39

Como na época da ginástica artística, Laís Souza continua fazendo isso na vida, mas pouco se importa. Na verdade, já está acostumada. Cheia de planos, sonha em ter filhos e quer continuar vivendo intensamente, como sempre fez, aliás.

Como na época da ginástica artística, Laís Souza continua fazendo isso na vida, mas pouco se importa. Na verdade, já está acostumada. Cheia de planos, sonha em ter filhos e quer continuar vivendo intensamente, como sempre fez, aliás.

O dia começara da melhor maneira possível. As credenciais haviam chegado e o treino daquela tarde seria mais leve, afinal o “passaporte” para sua terceira Olimpíada, a primeira na neve, materializara-se com aquele documento plastificado com seu nome e foto. Era 27 de janeiro de 2014 e Laís da Silva Souza não via a hora de embarcar para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, que começariam poucos dias depois, em 7 de fevereiro.

“Quando recebemos as credenciais, eu e a Josi (companheira de treinos) pulamos igual doidas”, conta Laís Souza, relembrando o dia que marcaria sua vida para sempre. “Nosso técnico acabou com a festa e falou: ‘Vamos treinar’. Pegamos nossas coisas e partimos para a montanha”, completa Laís, que à época morava e treinava a modalidade esqui aéreo em Salt Lake City, no estado de Utah (EUA).

Assim que chegou no alto da montanha, Laís ainda pensou duas vezes se colocaria ou não o capacete. “Será que coloco? Só vamos descer a montanha, não vamos dar (saltos) mortais. Decidi colocar mesmo assim”, rememora. “Subi e desci a montanha várias vezes, fazendo um treino de velocidade e freio. O Ryan (treinador) ia na frente, eu, no meio e a Josi, logo atrás. Quando faltavam 10 minutos para acabar, sofri o acidente.”
Acordei no hospital e ninguém disse para mim: ‘Laís, você está tetraplégica’. Fui percebendo sozinha.”

Dali em diante, Laís lembraria de pouca coisa. Sochi ficara para trás e sua luta, agora, era pela vida. No acidente, a ex-ginasta olímpica, que representou o Brasil nos Jogos de Atenas 2004 e Pequim 2008, bem como em outras competições importantes, esmagou a medula e teve séria lesão na terceira vértebra (C3) da coluna cervical, o que comprometeu suas funções motora, sensitiva e autonômica.

“Acordei no hospital e ninguém disse para mim: ‘Laís, você está tetraplégica’. Fui percebendo sozinha”, lembra, pouco mais de quatro anos depois do acidente. “Estava com muita febre, diarreia, muito remédio... Estava sem entender nada. Minha mãe chegou e foi me dando a notícia devagarzinho. Ainda demorei a acreditar e falava para ela: ‘Mãe, coloca o celular na minha mão’. Ela colocava e ia para o chão. Aos poucos, foi caindo a ficha”, completa Laís ficou um ano internada, sendo transferida depois para Miami. “Com certeza, foi o momento mais difícil da minha vida. Ainda está sendo, na verdade. Todas as pessoas que ficaram ao meu redor me deram muita força para continuar lutando”, destaca. “Entre elas, posso citar a Mara Gabrilli (também tetraplégica e deputada federal por São Paulo). Ela me passou muita força. Clareou bastante meus medos: temia não ter mais uma vida normal, não me surpreender com as coisas ou sentir adrenalina”, rememora. “Ela estava certa. Continuo sentindo tudo isso.”

Nova fase e #bolaprafrente

O acidente marca um novo ciclo na vida de Laís. Até chegar ao dia 27 de janeiro de 2014, no entanto, ela tinha passado por muita coisa. Natural de Ribeirão Preto (SP), sempre mostrou aptidão para o esporte. “Era uma criança espoleta, daquelas que vivia correndo de um lado para o outro, pulava o sofá de casa. Depois da ginástica artística, não fiz mais outro esporte.”

“No começo, não imaginava ser atleta, mas vi que minhas séries nos aparelhos estavam mais complexas, com mais acrobacias. Percebi, até pela cobrança dos treinadores, que não era mais uma menininha”, relembra Laís, que deixou a casa dos pais logo após os anos 2000, quando tinha apenas 12 anos, para viver e treinar em São Caetano (SP). Quatro anos depois, Laís já era uma atleta olímpica. “Entrar no ginásio e ver aquela multidão foi inesquecível”, conta.

Quatro anos depois, mais experiente, Laís retornava ao palco olímpico, trazendo de Pequim o sétimo lugar por equipes. Em 2012, uma contusão a afastou de Londres e ela foi percebendo que sua carreira na ginástica chegava ao fim. “Não sabia o que fazer. O atleta não tem nenhuma ajuda na hora de parar. Entrei numa confusão mental, foi muito difícil. Foi a primeira vez que falei ‘bola pra frente’ na vida.”

Um convite da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) deu o empurrão que Laís precisava: migraria de país e se prepararia para uma nova aventura olímpica no esqui aéreo, modalidade marcada por acrobacias tão complexas quanto na ginástica artística. “É muito comum essa migração, mas foi muito difícil a transição, apesar de ter sido uma experiência incrível aprender a esquiar, morar em outro país e voltar a sentir a adrenalina das competições.”

Até que veio o dia 27 de janeiro de 2014...

Novo recomeço

Hoje, Laís divide-se entre as aulas do curso de Psicologia, sessões de fisioterapia e participações em eventos e palestras motivacionais. “Queria melhorar muito mais rápido, mas as coisas não são assim e acabo me cobrando muito. Quando paro para ver meus vídeos, percebo que teve uma pequena melhora e lembro que vou precisar de mais paciência”, revela.

Para o futuro, a ex-ginasta tem vários planos. Abrir uma clínica de fisioterapia e passar a experiência que viveu para outras pessoas é um deles. Aplicar o que está aprendendo em psicologia no esporte é outro, mas o que ela quer mesmo é continuar vivendo intensamente, como fez sua vida toda.

“Sempre fui meio maluquinha, sabe? Outro dia, junto com um grupo de amigos, fui fazer um voo de parapente lá no Espírito Santo. Fui, pulei e fiquei com a adrenalina a mil. Senti-me viva, útil e vi que tudo é possível nessa vida”, comenta Laís. “Penso também em ter filho, colocar uma Laisinha no mundo. Nem sei se posso, mas é um desejo. Então, #bolaprafrente”, conclui.



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