O tempo passa, o tempo voa | Revista Fleury Ed. 40

Envelhecer é inevitável. Mas ainda podemos escolher entre diferentes caminhos para esse percurso sem volta. Segundo a psicóloga Maria Célia de Abreu, quem se empodera da vida traça uma rota muito mais suave e prazerosa até o fim.
Publicado em 10 de Janeiro de 2019
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Uma busca rápida na internet sobre frases relacionadas a envelhecimento leva a uma penca de citações. Há mensagens engraçadas, motivacionais, alegres, empolgantes, tristes, alarmantes... categóricas. De Platão a Confúcio, de Bertrand Russell a David Bowie, quase todo mundo, ao chegar à tenra idade, quer palpitar sobre o tema. Seria medo (proximidade) da morte, solidão, saudosismo, tédio, ociosidade?
Com a psicóloga paulistana Maria Célia de Abreu não foi nenhuma das opções anteriores. “Tive uma menopausa precoce e, aos 47 anos, comecei a pensar na minha velhice”, conta Maria Célia. “Passei a pesquisar e descobri duas coisas: era uma área de estudo rica e ampla, mas cercada de ignorância e preconceitos”, completa, com um senhor paradoxo: “De certa forma, ser velho é uma coisa nova”.
Nada mais verdadeiro. Quando forjado, há cerca de 130 mil anos, o ser humano vivia às voltas com doenças e com predadores à espreita. Os mais sortudos chegavam aos 30 anos, apontam estudos paleontológicos. Com o desenvolvimento da espécie e as importantes revoluções (cognitiva, agrícola, industrial e científica) realizadas pelo homem, nos tornamos mais sábios, inovadores, fortes, resistentes e... envelhecemos.
Em 1900, a expectativa de vida média do brasileiro era de 33 anos. Hoje, é mais do que o dobro.
Já o interesse por estudos do envelhecimento, em qualquer campo das ciências, tem poucas décadas. “Quando saí da faculdade, por exemplo, não se falava no assunto”, relembra Maria Célia, graduada na primeira turma de Psicologia da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), em 1968. “É preciso quebrar o preconceito sobre o tema e os velhos”, avalia.
A discriminação a que se refere a especialista tem muita relação com o mundo moderno capitalista, que exige agilidade e, sobretudo, produtividade. Com a barreira da idade, que naturalmente traz limitações físicas, o idoso foi sendo marginalizado. Antes fonte de sabedoria, tornou-se em muitos casos dependente financeira, emocional e socialmente de filhos e parentes. Virou um estorvo. Será?
Aos 73 anos, ainda ativa em seu consultório, dando palestras e participando de grupos de estudos, Maria Célia é prova viva de que a sentença acima não precisa ser verdadeira. O mesmo vale para seu marido, o dramaturgo Silvio de Abreu, que, prestes a completar 76 anos, comanda a área de dramaturgia da TV Globo. “Estudos preveem que a chamada terceira idade representará 30% da população em 2040. Somos numericamente significativos e, muito em função disso, o preconceito gradualmente está diminuindo”, avalia.

“De certa forma ser velho e uma coisa nova”

Autoconhecimento para empoderar
Para ela, o velho (“Prefiro esse termo a qualquer outro”, ressalta) precisa se empoderar. “Isso tanto no campo individual quanto no coletivo”, explica Maria Célia. “O idoso precisa se entender melhor, saber seus limites e pontos fortes. Só quem se conhece pode ter poder sobre si mesmo”, ensina. “E precisa assumir seu lugar na sociedade, para ter voz, intervir e controlar as situações que o cerca”, completa.
O mesmo mundo capitalista é, agora, um aliado importante. “Vale quem produz, mas é muito importante também quem consome, e o velho consome bastante. Muitas empresas já perceberam o imenso potencial desse mercado. O Estatuto da Terceira Idade é outro claro avanço”, acrescenta.
E na rotina, o que mais o velho pode fazer? “Participe de grupos de estudos, vá aprender uma língua estrangeira, faça aulas de dança ou crie um hobby. Não existe cérebro parado. Ele anda para frente ou regride. Não se isole do mundo”, afirma. “Entenda que você está na melhor fase da vida, e com tempo de sobra para devolver para a sociedade tudo que ela lhe proporcionou. Candidate-se para ser síndico do prédio, faça trabalhos voluntários. Na esfera profissional, abra uma consultoria”, recomenda.

Maria Célia de Abreu: nascida em São Paulo, em 1944, integrou a primeira turma de Psicologia da antiga Faculdade São Bento, incorporada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Lá, deu aulas por mais de duas décadas e completou mestrado e doutorado. Psicoterapeuta, clinicou por quase 30 anos. Fundou o Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico (Ideac), dedicado à psicologia do envelhecimento. Tem mais de dez livros sobre o tema; o último é Velhice, uma nova passagem.


Foto: Vinicius Medeiros