Excesso de peso, um problema de todos nós | Revista Fleury Ed. 22

Aos poucos, a clássica imagem das crianças carentes brasileiras, magras e subnutridas, vem sendo deixada para trás


Aos poucos, a clássica imagem das crianças carentes brasileiras, magras e subnutridas, vem sendo deixada para trás. Encerrada a primeira década do século 21, o maior problema nutricional infantil do país é o sobrepeso – inclusive entre as famílias menos favorecidas. Desde 2004, combater esse problema é a missão do Instituto Movere, de São Paulo. Com o trabalho de uma equipe multidisciplinar formada por médicos, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e educadores físicos, a instituição sem fins lucrativos já introduziu novos hábitos alimentares e atividades físicas na vida de 1.400 crianças carentes com sobrepeso – além de fornecer acompanhamento a suas famílias, totalizando atendimentos a 9 mil pessoas. Em resposta, registrou redução de peso e de outros fatores de risco para a saúde dessas crianças. “A maior dificuldade desse projeto é fazer as pessoas enxergarem que a obesidade é uma doença”, explica a médica Vera Lucia Perino Barbosa, presidente do Movere. Confira a seguir a entrevista que ela concedeu à Fleury Saúde em Dia.

FLEURY: A obesidade infantil é um problema identificado em todas as classes sociais no Brasil?

Vera Lucia Perino Barbosa: Sim. A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que, em todas as regiões do país e em todas as faixas etárias e de renda, houve aumento substancial do percentual de pessoas com excesso de peso e obesas. O sobrepeso atinge mais de 30% das crianças entre 5 e 9 anos de idade, cerca de 20% da população entre 10 e 19 anos e nada menos que 48% das mulheres e 50,1% dos homens acima de 20 anos. Entre os 20% mais ricos, a proporção de pessoas com excesso de peso chega a 61,8%, na população com mais de 20 anos. Também nesse grupo concentra-se o maior percentual de obesos: 16,9%.

FLEURY: Qual foi o fator que permitiu essas mudanças, ou seja, que a desnutrição paulatinamente deixasse de ser o grande problema de nutrição infantil no país, dando lugar à obesidade?

VB: Nos últimos 35 anos, o Brasil passou por uma impressionante transformação, completando a transição de país rural para sociedade urbana e industrial. Isso permitiu reduzir drasticamente o histórico problema da desnutrição e resultou numa mudança no padrão físico do brasileiro. Desde 1974, quando foi feita a primeira pesquisa familiar que registrou peso e altura dos entrevistados, a população tornou-se mais alta. O déficit de crescimento entre crianças declinou da faixa dos 30% para menos de 10%. Nesse mesmo período, o brasileiro ganhou peso. E é aí que a boa notícia começa a dar lugar à preocupação. Pois, com esse aumento do poder aquisitivo familiar, a alimentação tradicional do brasileiro – arroz, feijão, hortaliças – foi substituída por bebidas e alimentos industrializados, como refrigerantes, biscoitos, carnes processadas e comida pronta. Com essa transição nutricional, o baixo peso atinge hoje menos de 5% da população – o que é um indicador social positivo da maior relevância. Mas o sobrepeso e a obesidade explodiram.

FLEURY: Pode-se afirmar que, hoje, a obesidade é um dos grandes problemas de saúde do país, independentemente da classe social?

VB: Sim. Podemos estimar o impacto econômico disso no Sistema Único de Saúde (SUS) a médio e longo prazo. Dados recentes mostram o alto custo econômico que os agravos atribuídos à inatividade física e à obesidade podem acarretar ao indivíduo, à família e à sociedade. Hoje, os gastos relacionados a elas já alcançaram a marca dos R$ 1,5 bilhão, desembolsados pelo SUS, causando prejuízo para o indivíduo, desequilíbrio para a sociedade e perdas para o Estado.

FLEURY: Nunca é demais reforçar a informação: quais são os problemas que a obesidade pode acarretar à saúde de crianças e adultos?

VB: A obesidade é mais do que um problema com a aparência, é um perigo para a saúde. Milhares de mortes relacionadas a essa doença acontecem todos os anos. Várias situações médicas graves têm sido relacionadas a ela, incluindo diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, como pressão alta e infarto. Também está relacionada à maior incidência de certos tipos de câncer. Homens obesos têm maior probabilidade de apresentar câncer de cólon, reto ou próstata. Mulheres obesas têm mais chances de desenvolver câncer de mama, útero ou ovários. Outras doenças relacionadas ao problema incluem: cálculo biliar; esteatose hepática, isto é, acúmulo de gordura no fígado; osteoartrose, doença que desgasta as articulações; gota, outro mal que afeta as articulações por excesso de ácido úrico; afecções respiratórias, incluindo apneia do sono, na qual a pessoa para de respirar por curto período de tempo enquanto dorme; problemas no sistema reprodutivo das mulheres, incluindo infertilidade; além de irregularidades no ciclo menstrual.

FLEURY: E para outras dimensões da vida dela, como o convívio social e o relacionamento com amigos?

VB: : Este talvez seja um dos pilares mais importantes. A criança ou adolescente obeso pode sentir angústia, o que muitas vezes leva ao isolamento social. Por isso o papel do psicólogo é tão importante, para fazer com que a criança e o adolescente entendam seus limites e estejam cientes de suas escolhas.

FLEURY: Hoje, boa parte das crianças passa o dia em escolas ou com empregadas domésticas, avós etc. Como tratar da questão da obesidade estando longe de casa?

VB: VB: Crenças, valores, tradições e o modo de vida, como um todo, passam dos adultos para as crianças e se refletem nos hábitos alimentares e de saúde, já que as crianças tendem a comer o mesmo tipo de alimentos e a desenvolver costumes semelhantes aos das pessoas com quem passam a maior parte do tempo. Não basta que o familiar dê conselhos à criança que estiver acima do peso: é preciso que esse adulto se envolva no tratamento, procurando, por exemplo, acompanhar a criança em caminhadas ou modificando a sua própria dieta. Os pais devem ser motivados a realizar mudanças para mudar o ciclo vicioso da má alimentação e sedentarismo.

FLEURY: Quais as diferenças na abordagem da obesidade entre crianças carentes e outras que vivem em melhores condições econômicas?

VB: Não existem diferenças quanto à abordagem da questão entre as classes sociais, pois na raiz do problema estão hábitos já estabelecidos do cotidiano. Torna-se necessário empregar métodos que permitam intervir nesses hábitos, sem, contudo, destituir o ato de comer dos seus significados culturais. É por meio da alimentação que o homem se expressa psicológica e culturalmente. Apesar de a população mais privilegiada ter maior acesso a informações sobre os prejuízos que a doença acarreta, essas questões são permeadas pelo poder aquisitivo dos segmentos sociais e por oscilações entre aquilo que é ditado pela nossa cultura e o que é entendido como saudável. A má alimentação não é um problema apenas para a população carente de recursos. Todas as classes sociais têm dificuldade em adotar uma alimentação saudável.

FLEURY: Você costuma dizer que exercícios físicos, reeducação alimentar e a atenção aos aspectos emocionais são fundamentais no combate ao sobrepeso. Qual é, afinal, a importância de cada um deles nesse contexto?

VB: Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prática de atividade física regular reduz o risco de mortes prematuras, doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral, câncer de cólon e de mama, além de diabetes tipo 2. Atua na prevenção ou redução da hipertensão arterial, evita o ganho excessivo de peso, previne ou diminui a a osteoporose, promove bem-estar, reduz o estresse, a ansiedade e a depressão. Em crianças e adolescentes, maior frequência e intensidade de atividade física contribui para melhorar o perfil lipídico e metabólico e diminuir a prevalência de obesidade. Uma alimentação saudável, por sua vez, é capaz de prevenir complicações cardíacas, pois ajuda a controlar a hipertensão arterial, os níveis de colesterol sérico e a obesidade. Em relação à saúde emocional, percebe-se que as bases psicológicas envolvidas na obesidade podem denotar conflitos afetivos associados à busca das primeiras experiências de satisfação, preenchimento interior e segurança. Outras vezes, pode estar associada a sentimentos como culpa, remorso, raiva, entre outros. Portanto, o desafio da psicologia é compreender como diversos fatores emocionais interagem entre si em cada caso ou situação e, integrada a outras terapias, fornecer recursos para que o paciente possa dispor de um repertório qualitativamente mais amplo para responder à rotina e aos problemas da vida.

FLEURY: Como tratar cada um desses fatores?

VB: Realizar este trabalho demanda um esforço enorme dos profissionais envolvidos, que têm de travar uma grande batalha para mostrar à família que a criança não ficou obesa repentinamente, e que perder peso ou mantê-lo não será uma tarefa fácil – tratas-se de um processo demorado e gradativo, que exige esforços tanto do filho quanto dos pais. O nutricionista terá de buscar mais que um cardápio para poder modificar os hábitos desta família. Terá de mergulhar em um mundo onde as práticas alimentares são também sociais. Isso envolve a seleção dos alimentos, mas também o modo de preparo, de distribuição, de ingestão etc. A educação física também está diante do novo paradigma proporcionado pelo mundo modernizado, informatizado e robotizado. O professor de educação física ocupa hoje um lugar de destaque frente ao combate à doença, pois tem o privilégio de atuar como agente de prevenção e também de adaptação desta criança ao meio em que vive. Para isso, tem de estar capacitado para trabalhar com crianças e adolescentes obesos. A atuação do psicólogo na equipe possibilitará impactos positivos, tanto sociais e culturais quanto econômicos, criando uma oportunidade ímpar de preparar agentes multiplicadores que irão fazer diferença na formação das gerações futuras.

FLEURY: Quais os principais resultados obtidos junto a crianças atendidas pelo Movere?

VB: Registramos mudanças significativas nos fatores de riscos para a saúde, como melhora no perfil lipídico (redução do colesterol, triglicérides, LDL, VLDL e aumento do HDL), redução da circunferência abdominal, redução da porcentagem de gordura corporal, aumento da massa magra, melhora do condicionamento cardiorrespiratório e melhora nas capacidades motoras.

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