Estudos recém-publicados mostram relação causal entre vacinação contra herpes-zóster e redução de diagnósticos de demência

Estudos recém-publicados mostram relação causal entre vacinação contra herpes-zóster.

Dois estudos publicados no mês de abril deste ano, nas revistas Nature e JAMA, e um terceiro, publicado em julho, na revista npj Vaccines, apontaram uma possível relação causal entre a imunização contra o herpes-zóster (HZ) e a redução de casos de demência. O achado vai além dos dados de trabalhos anteriores, que estabeleciam apenas uma associação e não uma relação de causa e efeito entre o imunizante e a condição. 

As duas primeiras pesquisas se valeram de estratégias semelhantes de saúde pública, realizadas pelo País de Gales (Nature) e pela Austrália (JAMA), que implementaram, em 2013 e em 2016, respectivamente, programas de vacinação contra o HZ com o uso da data de nascimento de cada sujeito como critério para elegibilidade à imunização. 

O País de Gales, em 1º de setembro de 2013, considerou elegíveis para a vacinação contra o HZ, por um período de, pelo menos, um ano, todos os indivíduos nascidos em 2 de setembro de 1933 ou a partir dessa data, tendo excluído os nascidos anteriormente. De forma similar, a Austrália implantou a imunização gratuita contra o vírus em 1º de novembro de 2016 para pessoas nascidas em 2 de novembro de 1936 ou após essa data, enquanto as nascidas previamente ficaram inelegíveis de forma permanente. 

Com dados de registros eletrônicos de saúde de larga escala, os dois estudos compararam adultos que nasceram imediatamente antes da data estabelecida para elegibilidade à vacinação com aqueles que nasceram imediatamente depois. Uma vez que não se espera que pessoas com apenas algumas semanas de diferença de idade divirjam de modo sistemático, a abordagem de ambas as pesquisas estabilizou as potenciais variáveis de confusão entre os grupos.

A pesquisa feita com a população do País de Gales observou que os adultos elegíveis nascidos logo após o limite preconizado tinham uma probabilidade 47,2 pontos percentuais maior de ser vacinados do que os nascidos logo antes. Já a efetuada na Austrália estimou que adultos nascidos uma semana após a data-limite da elegibilidade tinham uma probabilidade 16,4 pontos percentuais maior de receber a vacina em comparação aos nascidos apenas uma semana antes. 

A partir de um desenho de regressão descontínua, esses estudos revelaram, de forma inédita, que a elegibilidade à vacinação diminuiu significativamente a probabilidade de um novo diagnóstico de demência durante um período de seguimento de sete anos, no estudo publicado na Nature, e de 7,4 anos, no publicado no JAMA.


O que os trabalhos descobriram
Nature
⊲ Elegibilidade à vacinação reduziu a probabilidade de um novo diagnóstico de
demência em sete anos.

JAMA
⊲ Elegibilidade à vacinação reduziu a probabilidade de um novo diagnóstico de
demência em 7,4 anos.

npj Vaccines
⊲ Diminuição do risco de diagnóstico de demência por 18 meses.


A vacina contra o HZ não afetou a ocorrência de quaisquer outras causas comuns de morbidade ou mortalidade nem aumentou a adesão a outros imunizantes ou a medidas de saúde preventivas. 

Os autores sugeriram alguns possíveis mecanismos que podem ser atribuídos à redução dos casos de demência por meio da vacinação contra o HZ. Diante da existência de neuroinflamação, tanto a diminuição das reativações virais subclínicas e clínicas quanto um efeito imunológico independente do agente patogênico estariam por
trás desse benefício indireto. 

Deve-se sublinhar que os trabalhos publicados na Nature e no JAMA envolveram a vacina atenuada contra o HZ (Zostavax®) – descontinuada no Brasil desde 2022 – e não incluíram o imunizante inativado recombinante (Shingrix®). Dada a significativa diferença na natureza desses dois produtos e em seus efeitos protetores contra a infecção pelo HZ e a neuralgia pós-herpética, os achados desses estudos não necessariamente podem ser extrapolados para pessoas que receberam a vacina recombinante.


Queda do risco de diagnóstico de demência


O estudo publicado na npj Vaccines, por sua vez, observou que as vacinas com adjuvante AS01 contra o HZ e o vírus sincicial respiratório (VSR), individualmente ou combinadas, comparadas com o imunizante antigripe, associaram-se à diminuição do risco de diagnóstico de demência por 18 meses em indivíduos norte-americanos. 

Nesse cenário, não foi observada nenhuma diferença entre as duas vacinas, o que levou os autores a considerarem, diferentemente dos dois estudos mencionados anteriormente, que o efeito neuroprotetor contra a demência poderia advir de mecanismos não relacionados à prevenção da doença pelo antígeno vacinal, mas, sim, do próprio AS01, ao modular vias imunológicas específicas que podem atenuar a deposição de placa amiloide.

 A pesquisa norte-americana ressaltou que a ausência de diagnóstico de demência não significa estar livre da doença, visto que pode haver atrasos no diagnóstico. No entanto, se a demora for semelhante entre as coortes, a diferença no tempo livre de doença seguirá a diferença no tempo livre de diagnóstico. 

Apesar dessas considerações, trata-se de resultados promissores e intrigantes, que merecem ser estudados em outros grupos populacionais e faixas etárias.