Um artigo brasileiro recente, publicado na revista Hematology, Transfusion and Cell Therapy, que contou com a participação de Maria de Lourdes Chauffaille, consultora médica do Fleury em Hematologia e Citogenética, e Maria Carolina Tostes Pintão, consultora médica em Hemostasia, relata um caso raro de leucemia mieloide aguda (LMA) familiar associada a uma nova variante patogênica germinativa no gene CEBPA em uma menina de 6 anos de idade.
Mutações no CEBPA, localizado na região cromossômica 19q13.1, estão presentes em 5% a 15% dos pacientes com LMA e podem ser de três tipos: 1) mutação única, em um alelo; 2) mutação dupla, formada por uma N-terminal e por uma no domínio bZIP; e 3) mutação homozigótica decorrente da perda de heterozigose.
A menina apresentou um quadro de febre persistente, palidez, fraqueza e petéquias com duração de um mês, além de hemograma com anemia, neutropenia, trombocitopenia e 21% de blastos. A análise citomorfológica e imunofenotípica por citometria de fluxo da medula óssea revelou 57% de blastos, com expressão CD7 e CD56, que, muitas vezes, se associam com mutações no gene CEBPA. Ademais, havia cinco parentes do lado materno,
na história familiar, com diagnóstico de LMA entre 4 e 18 anos de idade.
O sequenciamento completo do exoma, realizado em amostra sanguínea, apontou duas variantes no gene CEBPA não descritas nos bancos de dados genômicos e de variantes,
como gnomAD, dbSNP e ClinVar: uma variante patogênica germinativa em NM_004364.4:c.354_355dup.p.Val119 Alafs*42, com variação de frequência alélica de 45%, e uma variante somática, provavelmente patogênica, em NM_004364.4:c934_936dup.p.Gln312 dup, com variação de frequência alélica de 38%, ambas em heterozigose. A pesquisa dessas alterações em amostras de saliva da mãe, de dois tios e da irmã, realizada por sequenciamento Sanger, identificou somente a variante germinativa c.354_355dup (p.Val119Alafs*42), em heterozigose.
O caso ficou categorizado como LMA familiar CEBPA associada, conforme os critérios da Organização Mundial da Saúde, e LMA com mutação germinativa no gene CEBPA, concordante com os critérios da Classificação de Consenso Internacional.
A paciente foi tratada de acordo com o protocolo do Grupo de Estudo de LMA na Infância, tendo alcançado a remissão completa, que, inclusive, se mantém no seguimento pós-tratamento, o qual já completa dois anos.
Os autores destacam a necessidade de reconhecer as mutações germinativas na LMA, principalmente em pacientes jovens, mesmo que não apresentem outras manifestações sindrômicas. A presença de forte história familiar de neoplasias hematológicas também deve levantar a suspeita para essas condições.
Em adição, a descrição da nova variante patogênica no gene CEBPA contribui para o conhecimento do espectro genético dessa doença, fato importante para auxiliar os especialistas nos diferentes aspectos relacionados ao tratamento, como a escolha do doador de medula óssea e o regime para o transplante, bem como o aconselhamento genético em longo prazo.
Referência
Gava F, Catto LFB, Valera E, Reis MBF, Pintão MCT, Chauffaille ML, et al. Familial acute myeloid leucemia due to a novel germline CEBPA pathogenic variant – a case report. Hematol Transfus Cell Ther. 2024;46(S6):S417−S420. SCHUTTERSTOCK
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