O Mycoplasma genitalium configura-se como um patógeno de transmissão sexual obrigatória e responde por diferentes manifestações em homens e mulheres. Estima-se que sua prevalência na população geral alcance entre 1% e 3%. No sexo masculino, a infecção tem sido associada à uretrite não gonocócica sintomática e assintomática, bem como à uretrite persistente e recidivante. Nas mulheres, por sua vez, a infecção costuma se mostrar frequentemente assintomática e pode causar cervicite, doença inflamatória
pélvica, parto prematuro, abortamento espontâneo e infertilidade.
O manejo de pacientes com suspeita de infecção por M. genitalium costuma ser desafiador por algumas razões. Esse microrganismo não exibe crescimento nas culturas de rotina, de modo que os métodos biomoleculares, como a PCR, são sempre recomendados para sua detecção.
Em relação ao tratamento, há possibilidade de o M. genitalium ser resistente aos macrolídeos (azitromicina), cenário apontado por alguns autores como decorrente do amplo uso empírico dessa medicação em dose única, o que pode possibilitar seleção de cepas mais resistentes. Outra questão relevante para o clínico está na ausência de parede celular formada por peptideoglicanos nesse agente, uma característica que torna ineficazes os antibióticos betalactâmicos (penicilinas e cefalosporinas), cujo alvo é justamente a biossíntese de parede celular. Por fim, a resistência às quinolonas, especialmente à moxifloxacina, embora menos prevalente que a resistência à azitromicina, dificulta ainda mais a escolha de um esquema terapêutico que funcione.
Os índices de resistência aos macrolídeos chegam a ser superiores a 50% em muitas regiões e os que envolvem as quinolonas também vêm aumentando, o que faz do tratamento para esses pacientes uma preocupação em todo o mundo. Em quase todos os casos, porém, a resistência antimicrobiana do M. genitalium resulta de mutações do DNA que podem ser detectadas pelas técnicas moleculares.
Mutações de resistência
Recentemente, o Fleury pôs em rotina não somente a detecção desse patógeno por PCR, mas também a pesquisa molecular de mutações de resistência aos antimicrobianos, especificamente nos genes 23S rRNA e parC, que conferem resistência aos macrolídeos (azitromicina) e às quinolonas (moxifloxacina), respectivamente. Realizado por meio de sequenciamento por eletroforese capilar (método Sanger), o exame tem sido altamente recomendado nas infecções por M. genitalium após falha terapêutica ou recorrência, porém igualmente pode ser usado para direcionar a terapia inicial, sobretudo nos casos com sintomatologia recorrente e que já tenham recebido tratamentos empíricos em episódios anteriores.
Atualmente, a pesquisa molecular de genes relacionados à resistência bacteriana é preconizada pela literatura especializada no intuito de instituir o tratamento antimicrobiano direcionado e mitigar o desenvolvimento de resistência (resistance-guided therapy). As taxas de cura com esse tipo de abordagem superam os 90%.
Destaca-se que o teste para a detecção de resistência do M. genitalium só pode ser feito em amostras previamente positivas para o agente, não havendo possibilidade de realizar o exame em pessoas com resultado prévio negativo ou não detectado.
| E quanto ao diagnóstico laboratorial do M. hominis? |
A transmissão do M. hominis não obrigatoriamente ocorre pela relação sexual, como se dá com o M. genitalium, de modo que o patógeno pode ser detectado em sítios não estéreis do trato genital, como colo uterino e vagina, em pacientes assintomáticas. A cultura quantitativa é melhor do que o teste molecular para tais casos por conseguir diferenciar colonização de infecção – a presença de carga bacteriana superior a 104 unidades trocadoras de cor/mL corresponde a um alto valor preditivo positivo para a infecção. A PCR pode ser reservada para amostras clínicas coletadas de sítios estéreis, em pacientes de ambos os sexos, ou quando há cultura negativa em pacientes sintomáticas, desde que excluídas outras causas infecciosas. |
| Ficha técnica |
| Detecção de resistência em Mycoplasma genitalium Método: sequenciamento por eletroforese capilar (método Sanger) das principais regiões envolvidas com a resistência dos genes 23S rRNA (A2058G/A2058C/A2058T/A2059G/ A2059C/A2059T) e parC (A247C/A247T/G248A/G248T/ G259C/G259T/G259A) Amostras: urina de primeiro jato, raspado vaginal, raspado endocervical, raspado cervicovaginal, raspado anal e raspado de orofaringe Valor de referência: ausência de mutações de resistência Prazo de resultados: em até sete dias úteis |
CONSULTORIA MÉDICA
Ginecologia e Biologia Molecular
Dr. Gustavo Arantes Rosa Maciel - [email protected]
Dr. Ismael D. Cotrim Guerreiro da Silva - [email protected]
Infectologia
Dra. Carolina dos Santos Lázari - [email protected]
Dr. Celso Granato - [email protected]
Infectologia e Microbiologia
Dr. Matias Chiarastelli Salomão - [email protected]
Dra. Paola Cappellano Daher - [email protected]
Referências
• Centers for Disease Control and Prevention. Sexually Transmitted Infections Treatment
Guidelines, 2021. MMWR 2021;70(4):80-82.
• Durukan D. et al. Resistance-guided antimicrobial therapy using doxycycline-moxifloxacin
and doxycycline – 2.5 g azithromycin for the treatment of Mycoplasma genitalium infection: efficacy and tolerability. Clin Infect Dis. 2020 Sep 12;71(6):1461-1468.
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